Banda Musical e Recreativa de Penalva do Castelo: dois séculos de história, aventuras e amizade

A festejar 200 anos de existência, existe uma banda penalvense com gerações de histórias, de aventuras e de muita amizade, localizada em Penalva do Castelo, no centro de Portugal. Para marcarem este aniversário, vão realizar uma tournée por todo o país.

Reportagem de Inês Figueiredo

As associações culturais desempenham, ao longo dos anos, um papel fundamental no país. “Portugal tem 720 Bandas Filarmónicas, 1200 escolas de música, 50 orquestras ligeiras, 900 agrupamentos corais e mais 560 grupos etnográficos”, segundo dados da Meloteca.

As bandas filarmónicas inspiram-se em ideias liberais e de fraternidade, que começaram por existir para instruir e elevar o conhecimento cultural das pessoas da época. As bandas filarmónicas costumam desempenhar um papel vital na conservação da música tradicional, mas também se modernizam ao longo dos tempos e incorporam novos estilos musicais nos seus espetáculos. Normalmente, envolvem-se em eventos das suas regiões e, algumas delas, além-fronteiras. São formadas por músicos voluntários de várias idades, unidos por um propósito comum: a música, tendo uma estrutura organizacional de comissões diretivas e uma base de apoio do público.

A Banda Musical e Recreativa de Penalva do Castelo foi fundada em 1825 pelo filho de Vidal Paulo Piro, segundo informação de um documento existente na casa real, o que faz da banda penalvense uma das mais antigas a nível nacional. Em 1881, a banda musical dividiu-se em duas frações: a Progressista e a Generadora, sendo que uma pertencia à casa de Magalhães e a outra à casa Ínsua, respetivamente. Na época do Estado Novo, existiam algumas condicionantes políticas e sociais. Com isso, ao voltar a juntar as frações, foi dada entrada na Legião Portuguesa, ficando assim conhecida como a Banda Distrital da Legião Portuguesa.

Associação Instrutiva e Recreativa de Penalva do Castelo, Associação Musical e Recreativa de Penalva do Castelo e Banda Distrital da Legião Portuguesa de Viseu são os nomes e evoluções que teve. Apesar das várias classificações, nunca deixou de ser conhecida como a Banda de Castendo. Desde 5 de maio de 1977 que é chamada de Banda Musical e Recreativa de Penalva do Castelo, nomenclatura que perdura até aos dias de hoje.

Apoio à cultura cada vez mais escasso

Na era em que vivemos, “já é altura de se dar o devido valor à cultura e, neste caso específico, às bandas filarmónicas”, refere Anselmo Sales, presidente da direção da banda. “É importante os jovens não deixarem morrer estas tradições e que se continuem a conhecer as origens desta arte e continuar com o legado”, acrescenta.

Anselmo Sales, presidente da Direção da Banda Musical e Recreativa de Penalva do Castelo

Apesar de todas as tentativas por parte dos artistas e dos amantes da cultura, ao longo dos anos, para que a coletividade musical tenha o devido reconhecimento, a banda sobrevive à base de atuações e de apoios a nível municipal. Os particulares também se mostram sensíveis à associação e contribuem com donativos. De resto, missas, procissões, arruadas e concertos são as principais fontes de rendimento. Anselmo Sales admite que, se não fosse assim, a banda “já teria acabado à espera dos apoios de Estado”.

“Acho que infelizmente o interior ainda é muito visto como ‘pasto e ovelhas’ e acho que a cultura ainda não é muito valorizada, especialmente no interior. Considero que vemos cenários um bocadinho diferentes, se calhar na grande Lisboa ou no Porto, mas em sítios como Penalva os apoios não chegam facilmente, muito menos pelo Estado”, conta Rosa Sales, presidente da Assembleia Geral da banda. O maior responsável pelo grupo musical considera ainda que, se os apoios fossem um pouco melhores, era possível “fazer coisas muito mais interessantes e didáticas”.

Rosa Sales, presidente da Assembleia Geral da Banda Musical e Recreativa de Penalva do Castelo

Pagamentos a músicos, manutenção e aquisição de instrumentos, escola de música e transportes: são alguns dos gastos que a coletividade tem a seu cargo e, de todo, que os apoios apesar de existirem, são escassos.

“O maior apoio que podemos receber é do público”

Os apoios financeiros são muito importantes para a associação penalvense, mas Rúben Batista, membro da Assembleia Geral, realça um ponto muito importante. “O apoio dado pelo público é importantíssimo, uma vez que sentimos o nosso trabalho recompensado e que as pessoas gostam. E se ninguém for assistir? Ficamos desanimados, porque investimos muito do nosso tempo nos projetos. Sejam críticas positivas ou negativas, nós gostamos é que nos assistam”.

Rúben Batista, membro da Assembleia Geral da Banda Musical e Recreativa de Penalva do Castelo

O grupo tem atualmente 50 a 55 músicos e pertence a um polo do Conservatório de Ferreirim, indo aí recrutar os seus novos membros juvenis e, por isso, é alcançada a extensão da banda de geração em geração. Rosa Sales acha que “a banda já tem muitos anos e mudou muito. Agora os novos meninos dão uma nova vida à banda e estão sempre a renovar e a integrá- los. Isto é um ciclo e vão saindo uns e entrando outros. Para a banda se manter fiel, têm de estar sempre a entrar novos elementos”.

Todos os membros desta associação estão presentes pelo amor que têm em partilhar todos os anos os palcos. Rosa Sales conta que as viagens de autocarro “são sempre muito engraçadas, normalmente sai-se muito cedo e vai-se sempre a cantar e a brincar uns com os outros. Há lugar para muitas brincadeiras, em que até os mais velhos alinham”. Muito conforto é sentido aquando das reuniões e é uma forma de não se pensar nos problemas da vida. “Tenho amigos dentro da banda, que certamente vão ficar para a minha vida”, admite a dirigente.

“Entrei para a banda porque queria arranjar um passatempo, agora ganhei o gosto pela música e pelo convívio que me proporciona” admite Rúben Batista, acrescentando que também existem casos “de amigos que frequentam a banda porque querem seguir música profissionalmente”.

Espetáculos internacionais

Os espetáculos do grupo musical vão além-fronteiras, nomeadamente os Estados Unidos em 1979, na comemoração do 10 de junho, dia de Camões e das comunidades portuguesas. Em 1999, o grupo deu concertos em Espanha, no sexto Festival de folclore em Teruel. Por fim, em 2000, voltaram à América, estando no Brasil, nos 500 anos das comemorações das descobertas das terras de Veracruz. Em território nacional, é de salientar que já atuaram também nos Açores.

Concertos marcantes

“O concerto que mais nos marcou enquanto banda foi o tributo dos Queen juntamente com o grupo CãoQueLadra”, revela Anselmo Sales, que admite que querem “tentar voltar a repetir esse concerto”. A respeito dos transportes, recorrem à Câmara Municipal de Penalva de Castelo. Quando a entidade municipal não consegue satisfazer os pedidos, existe a ajuda de algumas firmas da região, como é o exemplo da “Melanie”.

“O concerto que mais me marcou foi o que o meu pai mencionou, o dos Queen e aquele em que entrei pela primeira vez na Semana Santa”, diz Rosa Sales. A magia do Natal não deixa ninguém indiferente e Rúben Batista, apesar de toda a logística pela qual assume responsabilidades, admite que os concertos de Natal são sem “os preferidos”. Andam o ano inteiro a trabalhar para esse objetivo e, no final do ano, numa época tão boa como é o Natal, é bonito mostrar ao público e às famílias o resultado.

Próximos espetáculos

Este ano, a banda comemora os seus longos 200 anos e com ela vem um ano cheio de espetáculos, energia e boa disposição. A tour começa no dia 1 de maio de 2024 e termina no mesmo dia em 2025. O público vai poder contar com um espetáculo no dia 25 de abril, com a presença de um cantor ainda por revelar e ao longo do ano vão decorrer teatros, concertos da banda e de grupos de música pop.

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