Coragem portugueses, já só vos faltam as virtudes!

No último dia 6 de outubro, Portugal foi às urnas falar e decidir a composição da nossa Casa da Democracia para a próxima legislatura, que em nome da estabilidade se espera que cumpra os 4 anos de mandato. Umas eleições em que pode-se dizer, que foram as primeiras em muitos anos em que as sondagens não falharam em toda a linha, pois todos os lugares dos partidos na tabela classificativa política foram confirmados.

Por Jorge Afonso

O Partido Socialista venceu de forma inequívoca subindo a sua percentagem em relação há quatro anos. O Partido Social Democrata depois de uma fraca oposição, acordou para a vida de alternativa política muito tarde e só três semanas de boa campanha não serviram para contrariar uma tendência derrotista. O Bloco de Esquerda consolidou-se como terceira força política. A CDU e o CDS-PP sofreram ambos a maior derrota e esvaziamento de sempre, sobretudo os centristas. O PAN foi a par dos socialistas, o único partido com assento parlamentar que subiu a votação e representação na AR e viu-se surpreendentemente, três partidos a conseguirem eleger um deputado cada para o Parlamento e cada um a representar uma tendência um pouco esquecida pelos partidos já existentes, Chega, Iniciativa Liberal e Livre.

Acompanhei as eleições até às tantas da manhã, através de um mapa interativo de um jornal online e indo geograficamente ao nosso mapa partido a partido, para os resultados eleitorais eu faço uma análise com base naquilo que achei que ia ser a receita para o êxito eleitoral dos partidos, quer para um ganhar, quer para outro ficar como terceira força.

O PS ganhou confortavelmente nas duas áreas metropolitanas, Lisboa e Porto, caso contrário nunca teria sido o partido mais votado, porque ganhar eleições em Portugal sem ganhar estes dois círculos é quase impossível. Teve um excelente comportamento no Minho, metendo oito deputados em Braga e vencendo em Viana do Castelo ao milímetro. Aguentou-se lindamente na área mais conservadora do centro do país, tanto no interior como no litoral, perdendo, mas tendo um resultado honroso em Leiria e Viseu e vencendo à tangente em Aveiro e na Guarda. Segurou os seus bastiões, Castelo Branco, alto e baixo Alentejo e Península de Setúbal e ganhou a maioria do voto ao centro em distritos como Coimbra, Santarém e Faro. Representado em todos os círculos, o PS parece ser para já o partido com melhor saúde a nível nacional.

O PSD segurando apenas os seus bastiões tradicionais, Vila Real, Bragança, Viseu, Leiria e Madeira, não subiu em particamente distrito nenhum e apenas se aguentou bem e melhor do que se esperava, também por se ter batido pelo voto ao centro em muitos distritos(Exemplos: No Porto, perde o distrito, mas vence o concelho. Aveiro a mesma coisa), mas sobretudo por causa do voto útil e do CDS nada ter subido.

O Bloco, perde cerca de cinquenta mil votos(curiosamente, quase o mesmo número de votos do Livre), mas nada se notou visto que os dois deputados que perdeu no Porto e na Madeira, recuperaram-se elegendo mais um deputado em Braga e outro em Aveiro. Mas afirma-se como um partido urbano.

A CDU e o CDS-PP foram a desilusão destas eleições. Os comunistas perdem cerca de 120 mil votos e 5 deputados, mostrando ter sido a força política mais afetada pela criação da geringonça, precisamente por ser dos três, o partido mais ideológico. Os centristas sofreram a maior hecatombe de sempre, tendo tido menos votos do que o mítico partido do táxi dos tempos do cavaquismo, perdeu treze deputados e tendo-lhe sobrado apenas cinco dos distritos do litoral, onde tem mais militância e onde é mais fácil eleger(Lisboa, Porto, Braga e Aveiro). Mas ficou a humilhação de ter ficado atrás do PAN em Lisboa, Porto e Setúbal e não tendo elegido o seu Líder Parlamentar(Nuno Magalhães).

O PAN sobe cerca de noventa mil votos, elege mais três deputados(Lisboa, Porto e Setúbal) e afirma-se como partido político fora do sistema que pretende ir mudando a sociedade por fatores e causas mais sociais e fraturantes.

Fora de questões geográficas, quero dizer que saúdo a vinda de mais partidos para a AR, mas lamento que só um é que não tenha um programa radical e não tenha descido o nível tanto na campanha como agora na entrada para o Parlamento, o Iniciativa Liberal. Quanto aos outros dois, não me pronuncio muito pois corro o risco de ser mal interpretado e agressivo, apenas digo que um aposta na manipulação e reacionarismo, o outro no antipatriotismo e vitimização.

Nas questões políticas, creio que António Costa vai confortavelmente formar governo pois não existe qualquer alternativa, mas vai estar desta vez, dependente de todo o Parlamento. Se for para aumentos salariais e questões sociais, Costa irá pedir ajuda ao Bloco, CDU e Livre, se for para acordos de concertação social, pactos de regime ou evitar descalabros no défice ou contas do Estado, lá irá pedir ajuda ao PSD.

O PSD e o CDS vão estar mortos politicamente com vista à mudança nas duas lideranças, até estarem definidas só depois haverá de novo oposição dura ao Governo. Tenho a convicção(como tenho há muito tempo) que Luís Montenegro será o novo líder dos sociais-democratas e a liderança dos democratas-cristãos será de um destes três políticos relevantes das várias esferas do partido: Adolfo Mesquita Nunes, João Almeida ou Francisco Rodrigues dos Santos.

O Bloco e a CDU vão estar numa guerra aberta para ver quem é mais de esquerda, se um deles consegue um bom acordo com o Governo para a classe média e para os trabalhadores, o outro tem de votar a favor para não ser chamado de traidor da classe. E se houver uma moção de censura apresentada por um, o outro será visto como burguês se segurar o Governo.

O PAN irá bater-se pelas suas causas animalistas, como fim das touradas, alimentação vegan imposta aos poucos e alguns sinais ecologistas. Do Iniciativa Liberal espero uma oposição construtiva ao Governo e com propostas concretas de reduzir o peso do Estado na vida financeira das pessoas.

Confesso que não resisto em terminar por dizer, por que razão é que escolhi este título e decido iniciar este artigo pelo assunto da abstenção. Acusa-se muitas vezes os partidos políticos de estarem distantes da realidade por conveniência ou ignorância. Mas a verdade é que esta campanha mostrou que todos os partidos, da esquerda à direita e dos mais antigos aos mais recentes, deram a sua atenção a todos os temas que eram precisos abordar em pleno 2019, nomeadamente as alterações climáticas. Já para não falar do facto de que, o número de homens e mulheres estar quase igualitário na Assembleia da República e ter havido mais juventude nas listas.

Apesar de todas as mudanças, ainda assim houve mais abstenção do que em 2015. Não digo que não haja razão para os portugueses se sentirem desiludidos com os partidos e o sistema político, mas se querem que os mesmos sintam isso na pele, existe uma solução: Vai-se à urna e vota-se em branco. Agora, ficar sentando no sofá nada vai resolver.

Sempre tive algumas dúvidas sobre a implementação do voto obrigatório em Portugal, mas começo a achar uma solução válida. Se formos a ver, é sempre assim: se as eleições forem no verão, a abstenção é porque foi toda a gente para a praia; se as eleições forem no inverno, a abstenção é porque estava chuva e frio e não quiseram sair de casa; se as eleições forem na primavera, a abstenção é porque estava bom tempo e aproveitou-se para ir à terra visitar a família e se as eleições forem no outono, a abstenção é porque com a mudança das temperaturas toda a gente estava doente de cama. O curioso é que são quase sempre os mesmos que vão votar e são quase sempre os mesmos que não vão votar, também por isso é que o nosso país pouco muda.

Termino o assunto da abstenção dizendo que os 45% de abstencionistas que decidiram não ir votar, não só nada podem reclamar como só têm um direito a partir de dia 7 de outubro: o de ser gozados, por terem permitido que os outros decidissem por eles.

Aqui chego à lógica do meu título, que é uma parte da frase do nosso Almada Negreiros: “a grandeza de um povo faz-se de virtudes e defeitos, coragem portugueses, já só vos faltam as virtudes!

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