Eterno Rei

Reis e Portugal, uma ligação que ultrapassa os 700 anos. A monarquia imperou em solo luso desde os tempos de D. Afonso Henriques até D. Manuel II, o último monarca português, deposto em 1910 com a implantação da república. Esta é a história que se conta aos miúdos na escola, no entanto há uma pecha nessa narrativa. Não referem o nome do rei da era moderna, Eusébio da Silva Ferreira.

Nascido em Maputo, Moçambique, foi no Sporting de Lourenço Marques, uma filial do Sporting Clube de Portugal, que Eusébio despontou para o futebol. Com 77 golos em 40 partidas, o rei com o cognome de pantera negra despertou o interesse dos clubes da metrópole. A escolha recaiu no Sport Lisboa e Benfica.

A partir daqui falamos de magia. Com um poder físico notável, uma técnica refinada e uma potência de remate distinta, Eusébio tornou-se desde logo um ídolo do terceiro anel do estádio da Luz, numa equipa que contava com jogadores como Mário Coluna, Torres ou José Augusto. Marcou 317 golos com a camisola encarnada, sagrando-se melhor marcador do campeonato em sete ocasiões. Campeonato esse que venceu em 11 ocasiões, para além de 5 taças de Portugal e uma taça dos campeões europeus. Em 1965, foi o primeiro Português a vencer a bola de ouro da france football.

A carreira de um jogador de futebol não se mede aos palmos, mas aos números. E após a exposição dos números da carreira do pantera negra ao serviço do Benfica, torna-se mais fácil perceber uma frase proferida por Ricardo Araújo Pereira, um benfiquista confesso, poucos dias depois do falecimento de Eusébio.

“Vestir a camisola do Benfica é uma honra para todos os jogadores. Alguns, e não são assim tantos, honram tanto a camisola como ela os honra a eles. Outros, ainda mais raros, conseguem dar mais ao Benfica do que o Benfica lhes dá. A esses, o clube ergue-lhes uma estátua à porta do estádio. É por isso que só está lá uma”.  Esclarecedor.

A história de Eusébio confunde-se com a do Benfica, no entanto, há um capitulo destinado à equipa das quinas, algo indispensável na vida de um Rei.

1966. O ano em que Eusébio, Hilário, Coluna, Simões, Torres, Américo, entre outros, ficaram perpetuados na história do futebol português. A primeira geração de ouro. Os magriços, como ficaram conhecidos, disputaram o primeiro mundial da história do futebol lusitano, alcançando um honroso 3.º lugar, com o sonho do ouro a esbater na qualidade da seleção anfitriã, a Inglaterra de Bobby Charlton. Eusébio, melhor marcador do torneio com 9 tentos, abandonou o campo a chorar, estava inconsolável com a derrota. Ele sabia que aquela era a grande oportunidade. Aquela geração tinha todas as condições de vencer aquele mundial, mas não conseguiu. Os heróis também falham Eusébio, não te recrimines, porque vida não acabou em 66. O mundo dá muitas voltas.

Vingança é uma palavra forte, por isso vamos substituí-la por desforra, que demorou 38 anos a acontecer, mas ocorreu. Euro 2004. Portugal. Lisboa. Estádio da Luz. Portugal defronta a Inglaterra no jogo dos quartos de final da competição. Tinha chegado o momento. Tu, melhor que ninguém, sabia-lo Eusébio. Depois do empate a dois golos, o jogo foi resolvido nas grandes penalidades. O Ricardo defendeu, sem luvas, o remate do Vassel, tendo feito convertido a grande penalidade decisiva. Épico. No meio de toda a azafama dos festejos, lembro-me de te ver ajoelhado com a tua toalha branca a beijar a relva. Emocionante Rei. Essa vitória também foi tua.  Tal como aquela, dois anos depois, no mundial de 2006, quando eliminámos novamente a Inglaterra nas grandes penalidades. Outra vez os Ingleses, Eusébio. Qual conto de fadas, mas o melhor ainda estava para vir.

10 de Julho de 2016. O grande momento futebolístico deste paraíso à beira mar plantado. Tu estavas lá Eusébio. Desta vez não em forma de Rei ou de Pantera, mas de Deus. Não foi só o Éder que degolou os galos com aquele remate potente, tu ajudaste-o. Com a tua toalha branca ao ombro, segredaste-lhe que ele era capaz de dar uma alegria a mais de 10 milhões de portugueses. E ele deu. Obrigado Eusébio.

2018 é ano de Mundial na Rússia. Precisamos de ti. Tal como em Paris, quero ver-te a dar a volta olímpica com a tua toalha branca e a gritar: Portugal é campeão do mundo. Um rugido que vem com 52 anos de atraso. Um abraço Eusébio, de um futuro campeão do mundo, graças a ti.

 

Texto: João Miguel Carvalho

Imagem: wikipedia

 

 

a