Grupo Desportivo de Resende. Pequenos guerreiros azuis não baixam guarda à Covid-19

Num país em que o futebol é o desporto rei, é difícil a manutenção de um clube ou, até mesmo, das ligas. Com a covid-19 ainda presente, as ligas de futebol não tiveram outra opção senão fechar as portas aos treinos e, consequentemente, aos jogos, o que trouxe repercussões prejudiciais para alguns clubes, principalmente do interior e nos escalões de formação. As camadas jovens são uma parte essencial na vida de uma criança, sendo visível a alegria e a paixão à camisola que cerca de 250 miúdos carregam ao peito nos escalões de formação do Grupo Desportivo de Resende.

Reportagem de Samuel Rabaça

O Grupo Desportivo de Resende começou por estabelecer um plano de contingência, mas a pandemia de covid-19 obrigou o clube a fechar portas, tanto ao seniores, como às camadas jovens. “Numa primeira fase optámos por não treinar, pois queríamos limitar os casos na comunidade”, refere Hélder Pinto, coordenador dos escalões de formação do clube. A covid-19 obrigou o clube a adiar os treinos durante mais de um ano e o campo de Fornelos esteve encerrado.

Depois de vários meses, com a pandemia parcialmente controlada, e após algumas reuniões com a direção desportiva do Resende, o clube conseguiu voltar a reabrir os espaços de treino e de jogo. “Com a análise dos escalões de formação, e porque felizmente não houve nenhum surto de covid, conseguimos chegar a um acordo com a direção do clube e pôr todas as camadas jovens com mais de 250 miúdos a treinar, com todas as medidas de segurança impostas no estádio”, explica Hélder Pinto.

A reorganização dos espaços físicos foi um dos objetivos mais importantes para o regresso ser o mais seguro e objetivo possível. “Nós optamos por fazer treinos em que não houvesse contacto físico dos jogadores e dos treinadores”, conta o coordenador. Dentro do campo organizavam-se pequenas atividades separadas com o máximo de 4 a 5 crianças, que iam rodando entre si. Os treinadores e adjuntos garantiam que tudo corria dentro das normas e com o máximo de segurança possível: “a atividade desportiva é essencial para a vida das crianças e jovens e com a máxima de segurança”, finaliza Hélder Pinto.

O vice-presidente do clube, Herculano Teixeira, acredita que futuramente será possível lidar com o vírus de uma melhor forma, esperando até que este acabe de uma vez por todas. Com algum esforço da parte do coletivo foi possível arranjar soluções e pensar positivo. “Houve certos constrangimentos, porque também estamos a falar de crianças desde os seus 6 anos, até aos 17 a 18 anos. Com algum sacrifício tudo se conseguiu e agora só temos de continuar com o mesmo trabalho, mesmo com a agravante de casos que temos tido localmente. Temos que pensar positivo e acreditar que não vamos ter que mandar os miúdos para casa”, destaca o responsável.

Equipa de sub-10

O regresso e o medo do vírus

Com o regresso aos treinos, alguns pais, com medo de possíveis infeções, não permitiram que os seus filhos voltassem. Herculano Teixeira compreende a resistência: “é absolutamente normal, até porque os casos estavam a aumentar. Ainda se tem sentido, mas já conseguimos lidar melhor com este vírus”. Ainda assim, o dirigente destaca as consequências: “Esta resistência levou a que os pais não deixassem os filhos praticar desporto e, ao não praticar desporto nesta idade, nota-se perfeitamente um rendimento físico muito pior ao habitual, até porque outras escolas de formações também o confirmam.”

José Augusto, presidente da Junta de Freguesia de Resende e pai de uma das crianças da equipa dos sub-10, concorda: “Nós, como adultos, temos que descer ao nível deles para perceber o quanto podemos incentivá-los a fazer melhor, até porque iremos notar um crescimento enorme neles, o que é algo gratificante”, afirma.

O papel das mulheres nas camadas jovens do GD de Resende também tem sido notável. A equipa conta com cinco meninas, com idades entre os 8 a 10 anos. Apesar de não haver uma equipa feminina, continuam com a esperança de que futuramente esta venha a ser uma realidade. Augusta Silva, mãe de duas das crianças da equipa dos sub-10, fala sobre a importância deste assunto. “Não as devemos discriminar por serem mulheres. Todos devemos ter oportunidade de ter uma vida desportiva ativa. Neste caso, no futebol. Até porque já existem muitas equipas femininas. O Grupo Desportivo de Resende teve uma ótima ideia ao deixar as meninas integrarem-se nos escalões de formação”, realça.

“Somos o complemento à educação dos pais”

Embora o coronavírus tenha interferido bastante com o clube, a motivação dos pequenos jogadores manteve-se intacta até ao fim. A resposta das crianças é positiva face às medidas que são impostas semanalmente, nomeadamente com testagens, desinfeção e todos os cuidados que o clube dispõe. “Eu gosto de ir aos treinos e sou convocada, quer dizer que treino bem. Gosto de jogar com os meus amigos. O covid não afetou nada porque temos cuidado e jogamos na mesma “, diz Joana Bernardo, jogadora da equipa sub-10 do GDR.

A motivação também está relacionada com os estímulos que o treinador e a equipa assistente fornecem diariamente. Desde os treinos à convocatória para os jogos, é necessário percorrer um longo caminho. José Rabaça, treinador dos sub-10, acredita que a sua função principal é dar continuidade à educação que os pais dão em casa. Para além do incentivo à prática do desporto, é também uma função do treinador complementar a educação de todos os meninos. “Somos o complemento à educação dos pais. Ao fim ao cabo, somos educadores mais do que treinadores, neste escalão de formação do Grupo Desportivo de Resende”, refere o técnico.

José Rabaça, treinador dos sub-10

Nos jogos mais recentes, com o aumento de casos em Resende, o treinador teve que elaborar um plano para que as crianças não perdessem a motivação de jogar. Embora a equipa sinta cada vez mais baixas, José Rabaça garante que “não é o covid que os vai afetar na motivação, mas sim quando são confrontados com situações, tais como os colegas testarem positivos e eles serem sujeitos a testes”.

“Eu gosto muito de ir aos treinos e se eu apanhar covid fico triste, porque não posso ser convocado e jogar a bola com os meus colegas”, partilha Gonçalo Cardoso, jogador dos sub-10.

Para os 250 mini futebolistas do GDR, o futebol é a oportunidade perfeita para sair de casa, para conviver e, sobretudo, fazer amigos. Os escalões de formação são essenciais na vida destes jovens e, com esta motivação e vontade de vencer esta triste realidade, nada melhor que um remate certeiro na baliza da covid.

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