De herói a vilão?

Será justo permanecer refém de um sucesso com cinco anos? Será justo perder, assim, uma geração de ouro? Fernando Santos deu-nos o que nunca ninguém conseguiu. É verdade. Mas essa vitória, que já tem cinco anos, vale uma vida inteira a jogar para o empate? Não merecemos mais ambição, um plano, uma equipa? Não merecemos ter futebol na nossa seleção nacional?

Por Kevin Santos

            Que a seleção joga mal já eu sabia há muito tempo. Afinal, até no Euro 2016, que acabámos por ganhar, jogámos mal… Empate a empate, rumo à vitória. Fomos felizes, mas tão ingénuos. Aquele golo mítico do Éder pautou a maior vitória de Portugal nos relvados… mas, infelizmente, tornou-nos reféns (até à atualidade) de um futebol pobre, conservador e sem ideias. Tudo isto numa altura em que vemos a nossa verdadeira geração de ouro escapar como areia entre os nossos dedos… Temos os melhores jogadores, a atuar nos melhores clubes do mundo, mas, de alguma forma, não conseguimos completar três passes consecutivos. Algo de errado não está certo…

            Tudo na vida tem um prazo e, como sabemos, no mundo do futebol os prazos são mais curtos. Os treinadores/selecionadores vivem de resultados. Tal como Nuno Espírito Santos, que foi despedido há pouco tempo, afirmou, “há algumas semanas fui eleito Treinador do Mês e agora já passaram alguns dias desde a minha demissão”. Então, como é que Fernando Santos continua à frente da nossa seleção? Simples, tem apresentado resultados. Sim, é mesmo verdade.

Se realizarmos o exercício de fingir que não temos alguns dos melhores jogadores do mundo (e talvez deixar de assistir aos jogos), as coisas não parecem assim tão mal. Ora vejam, desde que Fernando Santos treina a equipa das quinas, esta foi a primeira derrota a jogar em casa! Grande feito! Agora é só esperar pelo primeiro jogo em que praticamos um futebol bonito, porque, por vezes, até que vimos alguns rasgos de qualidade, mas no cômputo geral, valha-nos Deus (ou Ronaldo…).

Desde a chegada do ‘homem dos empates’, Portugal perdeu sete jogos (nos jogos a doer, o resto não interessa a ninguém). Nada mau. O problema é que desses, três foram em fases finais de Europeus/Mundiais. O que quero dizer com isto? Não temos tido maus resultados… quando defrontamos seleções de qualidade inferior (claro que há exceções, até vencemos a Liga das Nações e tal). Quando encontramos seleções de nível superior (o que custa dizer isto…), lá se vão os empates, lá se vai tudo. Não merecemos mais?

Para quem continua a defender Fernando Santos (se ainda restar alguém), sim, é verdade que perdemos poucos jogos, mas deixo-vos o seguinte registo. Considerando todas as fases finais de Europeus/Mundiais (Euro 2016 incluído): vencemos três equipas, País de Gales (a única vitória no Euro 2016 – no final do tempo regulamentar), Marrocos (vitória muuuito sofrida) e Hungria (o 3-0 é um resultado extremamente enganador); empatámos 9(!) jogos; e perdemos com Uruguai, Alemanha e Bélgica. É necessário dizer mais alguma coisa?

Dói ver como a teimosia encaminha o nosso selecionador para a porta mais pequena do futebol português, quando devia sair pela maior de todas. Dói ver como o herói se vai transformando em vilão…

Obrigado, Fernando Santos, mas já chega. Precisamos de mais, merecemos mais!

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