“A Natureza está no Interior do País”

Pensada durante a situação pandémica que o país atravessa, a “Natureza está no Interior” é a exposição temporária do Museu Grão Vasco, em Viseu, que apresenta autores como Rafael Bordallo Pinheiro, Columbano Bordallo Pinheiro e Josefa Greno. A exposição que, inicialmente, era para ser exposta até ao final do mês de novembro, pode agora vir a ser uma das atrações para as férias de Natal.O #dacomunicação foi até ao museu e, junto de Odete Paiva, diretora do Museu Grão Vasco, percebeu qual o intuito da exposição e se é seguro, nesta altura, visitar os museus.

Por Carla Almeida

Qual é o conceito da exposição?

O conceito da “Natureza está no Interior”, que é o nome da exposição, tem a ver com o facto de eu pertencer a uma equipa que, logo no início da pandemia, desenvolveu um estudo e chegou à conclusão de que os portugueses iam fazer as férias possíveis em territórios menos pandémicos. O interior ia ser um dos destinos e dentro do interior as áreas de natureza, como os percursos pedestres, as barragens, as praias fluviais, parques naturais, etc. Foi então que percebi que dentro desta linha fazia sentido nós propormos uma exposição. A “Natureza está no Interior” é um nome muito abrangente, no sentido de estar no interior do país, no interior do museu, está no nosso interior…é o interior que quiser. Saber que os portugueses vinham fazer férias para territórios menos comuns e vinham à procura da natureza, então é desse ponto de vista que nós fazemos esta exposição de naturezas mortas.

Para além disso, outro dos nossos objetivos era mostrarmos uma parte significativa da nossa coleção. Só a primeira obra de natureza morta que está na primeira sala é que estava na sala do museu, de resto é tudo da nossa reserva, nenhuma destas peças está habitualmente disponível para ser vista pelo público e, portanto, achamos que era uma boa forma de divulgarmos aquilo que é a importância da nossa coleção nesta área. Fazê-la rodar um bocadinho pelas salas.

Por último, cruzar a nossa coleção com uma coisa diferente e o diferente foi quando nós encontrámos na nossa reserva uma peça de (Rafael) Bordallo Pinheiro. Nós tínhamos obras de Columbano e o Columbano e o Rafael são irmãos e então resolvemos fazer esta dicotomia entre a família, com um “despique de irmãos”, no sentido em que um trouxe as cerâmicas e o outro a pintura.

Depois descobri que a casa de Santar tem uma extraordinária coleção de pinturas da Josefa Greno e achei que nós também deveríamos reabilitar um bocadinho esta Josefa Greno ao colocar aqui uma obra sua. Esta é uma obra convidada. Eles tinham muito jardins, mas para nós interessava-nos uma obra que contrastasse com Columbano.

O que podemos ver nesta exposição?

Sobretudo natureza morta, que no caso do nome em português é feio, os ingleses dizem still-life, ainda está viva e a prova de que está viva é que tudo isto tem aromas. Na receção, quando fazemos visitas guiadas temos aromas de jardim que costumamos colocar aqui (na sala da exposição) e o nosso gel tem cheiro a limão, precisamente, porque a primeira fruta a ser representada por Velázquez foi um limão, então em homenagem ao limão representado na arte o nosso gel cheira a limão e temos um perfume de rosas que aplicamos no jardim para ser uma experiência mais sensorial.

Temos pinturas de coisas raras, que para nós hoje é muito comum, os ananases, por exemplo, houve uma altura em que o ananás era uma fruta exótica. Os girassóis são exóticos, as nêsperas e as magnólias também não são portuguesas. Depois temos, por exemplo, uma folha de castanheiro, que é o agigantar o português, o mesmo que acontece com os mariscos e as frutas. Mas também fazemos algumas brincadeiras, temos um micro caracol numa das pintura do século XVII e fizemos o contraste com um caracol gigantesco na entrada, que é da autoria de (Rafael) Bordallo Pinheiro. Por fim, terminamos a exposição com uma obra modernista, com um conceito diferente, mas para demonstrar que apesar de o motivo da representação será o mesmo, a questão estética e a forma é que difere, mas o elemento central, é que continuamos a representar vasos de flores.

A covid-19 veio influenciar as visitas ao museu?

O mês de agosto foi mesmo muito bom. Só em agosto tivemos no Museu cerca de 6 mil e tal pessoas, nem todas vieram ver a temporária. Nos últimos meses o número tem vindo a diminuir, é normal, até devido à situação estar a piorar também. Tínhamos imensos grupos de alemães e da Nacional 2 que vinham todos os dias. A partir do momento em que cancelam as visitas todas, porque também não podiam sair do país de origem, morremos… Não temos escolas, não há turistas, de vez em quando vem um casal, duas ou três pessoas, noutros dias vêm 4, 5 pessoas, mas na semana passada que houve um dia de chuva horrível não veio ninguém, que é algo quase inédito, mas também acontece, principalmente nesta altura. Podemos dizer que cerca de 6 mil pessoas, um número talvez abaixo do que realmente é.

O número de visitantes é menor em relação a outras exposições feitas noutros anos?

Não, estes meses de agosto, setembro e outubro não foram meses muito abaixo daquilo que seriam outros meses em outros anos. Foram menos do que os números de 2019, mas o mês de agosto deste ano até foi mais alto do que o mês de agosto em 2018. Entre 2018 e 2019, este ano ficou ali no meio, não houve nestes 3 meses um decréscimo assim tão significativo. Do ponto de vista financeiro houve até mais bilheteira.

Que medidas foram aplicadas no museu face à situação pandémica que vivemos?

Nós temos uma senhora que assim que alguém toca na porta ela passa um pano com desinfetante ou toalhetes. A função dela é fazer os percurso dos visitantes e em tudo o que é possível que toquem ela desinfeta logo. Temos os tablets todos desligados, precisamente, para não haver aquela tentação de mexer e todo um plano de contingência montado com a parte de higiene e segurança, com uma área covid, temos acrílicos nos balcões para as pessoas estarem protegidas, temos gel em todo o lado e os percursos assinalados. O museu tem a vantagem de por pisos não dar para voltar para trás, faz-se sempre em sentido contíuo, não havendo assim grandes situações de cruzamento. Temos um número de pessoas por grupo que dividimos por piso, uma preocupação que antes não havia. Antes as pessoas chegavam e faziam a visita conforme queriam, agora não, temos definido 60 pessoas no museu, 20 por piso.

Para terminar, que mensagem gostava de passar para quem os visita?

Venham! Somos capaz de deixar a exposição por mais um mês, até depois do Natal. Até porque as peças são nossas, por isso não há problema. Assim também temos algo gratuito, acaba por ser um “agradinho” de Natal. Quanto ao museu, é o sítio mais seguro para vir, por uma razão simples, não se mexe em nada. Isto não é de mexer. Todos vêm de máscara, o número de pessoas é controlado, as portas são abertas pelos nossos funcionários, as casas de banho são todas desinfetas várias vezes por dia… O nível de segurança do museu é absoluto. As pessoas podem vir ver calmissimamente, porque não acontece nada. Ninguém mexe, caso contrário os nossos funcionários dizem “desculpe, não pode”.  As pessoas podem confiar, os museus têm um espaço muito grande onde há muito cuidado e muito pouca interação, apenas usam os próprios equipamentos, para tirar fotografias, por exemplo. Desse ponto de vista isso é muito tranquilo, não há risco algum de ficar infetado.

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