BREXIT: O que mudou na vida dos emigrantes

A 23 de junho de 2016 ocorreu o referendo que levou à saída do Reino Unido da União Europeia à qual se deu o nome de Brexit. Os eleitores responderam à pergunta” Deve o Reino Unido permanecer como membro da União Europeia ou sair da União Europeia?”, sendo que as opções de resposta eram “permanecer” ou “sair”.

No total houve 46 499 537 eleitores, sendo que 51,8% (17 410 742) votaram na saída do Reino Unido da UE, contrastando com os 48,2% (16 141 241) que votaram na permanência. Os restantes votos foram considerados nulos.

Segundo os números da Segurança Social de Portugal, há cerca de 234 mil portugueses a viver e a trabalhar no Reino Unido, apesar de as estimativas das autoridades nacionais apontarem para mais de meio milhão de portugueses emigrados no Reino Unido. A curto prazo, as duas consequências mais significativas para os portugueses residentes no Reino Unido são a perda de valor da libra face ao euro e o abrandamento económico esperado, que poderá levar à diminuição do emprego disponível, tal como revela a Forbes.

De acordo com os dados oficiais do Departamento de Trabalho e Pensões do Reino Unido, revelados pelo Jornal de Negócios, a emigração portuguesa para o Reino Unido diminuiu em 26% em 2017, comparando com os dados recolhidos em 2016. Esta é a segunda descida anual consecutiva no número de novos emigrantes portugueses no Reino Unido, sendo estes valores os mais baixos desde 2013.

De acordo com a SIC Notícias, enquanto uns valores diminuem outros sobem, sendo que as consequências do Brexit não se sentem só na emigração. Segundo a ONU, os casos de racismo e xenofobia no Reino Unido têm vindo a aumentar. Tendayi Achiume, enviada-especial da ONU sustenta esta ideia, com o aumento do uso de palavras de ódio durante e depois do referendo à saída do Reino Unido da União Europeia.

As autoridades portuguesas apontam que o Reino Unido é o quinto país estrangeiro, e o terceiro na Europa, mais escolhido pelos portugueses para emigrar, revela o Jornal de Negócios. Estima-se que mais de 400 mil compatriotas morem no Reino Unido. A comunidade portuguesa em Inglaterra é, entre os principais destinos de emigração, a que tem a maior percentagem (38%) de licenciados.

 

Testemunhos reais

Vânia Santos, 22 anos, emigrou para o Reino Unido aos 16 anos, com os pais porque “procuravam melhor condições e Londres pareceu uma boa ideia e tem resultado até agora”, afirma. Relativamente ao Brexit, Vânia considera que “não só os portugueses, mas todos os emigrantes em geral se sentem inseguros” uma vez que sentem que o futuro ainda é incerto.

 

Vânia Santos

 

A residente no Reino Unido considera que os ingleses nativos têm receio que os emigrantes venham ocupar as ofertas de emprego disponíveis, no entanto, Vânia explica que não é esse o objetivo dos emigrantes, mas sim trabalhar, até porque “o trabalho não nos assusta”.

O único problema sentido pela jovem emigrante, depois do referendo do Brexit, foi o facto de ter de tirar o passaporte devido às novas políticas de entrada no país.

Helena Figueiredo, especialista em enfermagem clínica, emigrou para o Reino Unido em 2008, após ter trabalhado em Portugal durante 4 anos. Uma das razões que a levou a emigrar foi “sobretudo a falta de perspetiva de carreira e a falta de condições de trabalho. Foi um desafio a que me propus e era algo que a nível pessoal e profissional ambicionava fazer”, revela.

No que diz respeito ao Brexit, Helena afirma: “acho que não faz sentido ter-se aprovado o Brexit, foi tudo uma questão de jogo político. As campanhas foram mal conduzidas, muitos dos argumentos apresentados eram falaciosos e ninguém sabia ao certo o que estava em questão e quais as consequências de um resultado como o que se veio a verificar”.

A residente no Reino Unido declara que os resultados do Brexit foram um choque para toda a população pois ninguém estava à espera que o Leave ganhasse. “Gerou-se um sentimento de profunda desilusão entre os europeus que, de um momento para o outro, deixam de se sentir bem-vindos. As semanas seguintes à votação foram muito difíceis. Lembro-me na manhã seguinte, no comboio fez-se um silêncio absoluto e constrangedor”.

 

Helena Figueiredo

 

Em relação às consequências, tanto para o Reino Unido como para Portugal, Helena crê que ainda há muitas questões a discutir e a negociar, pois existe uma grande incerteza em relação ao resultado das negociações e o Brexit terá certamente implicações tanto a nível económico, político e social. Por outro lado, acrescenta que o Reino Unido tem uma ligação privilegiada com outros países, como os da Commonwealth ou a China.

Relativamente às mudanças a nível económico após o referendo, a enfermeira confirma: “Sim, existiram algumas. Por exemplo, na área dos recursos humanos de enfermagem, onde existe uma enorme carência, houve um decréscimo abismal no número de profissionais europeus a chegar ao país. Várias agências europeias sediadas iniciaram o seu processo de realocação, como a Agência Europeia do Medicamento. E o mercado imobiliário, que é extremamente dinâmico, abrandou. Logo aí gerou-se muita incerteza e isso é algo que os investidores não veem com bons olhos”.

Helena Figueiredo pensa que o referendo, terá levado à saída de muitas pessoas e famílias do Reino Unido. Para além disso afirma que ainda existem muitas questões relacionados com a legitimidade em permanecer no país depois de março de 2019 (data marcada para a saída do Reino Unida da União Europeia) e sobre a forma como essa questão vai ser gerida, principalmente para quem está no país há menos de 5 anos.

Segundo uma sondagem feita pelo Daily Mail, 50% das pessoas apoiam outro referendo sobre os termos finais do acordo de saída do Reino Unido, 34% rejeitam outra votação e 16% disseram que não sabem.

 

Texto: Ana Raquel Abreu, Ana Beatriz Almeida, Diana Ferreiro e Sandra Ferreira

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