População de Boidobra lamenta tradições perdidas

Algumas das tradições quaresmais como o “Cantar dos Martírios” perderam-se na vila da Boidobra, Covilhã. Habitantes sentem que as tradições estão a desaparecer na localidade.

As constantes mudanças da sociedade atual e a fragilidade da manutenção de tradições consideradas “ancestrais” são cada vez mais evidentes. Na pequena vila de Boidobra, situado na Covilhã, o “Cantar dos Martírios” já não é realizado. Esta tradição inicialmente era cumprida pelo povo, na altura da Quaresma. Nesta altura os Martírios eram um exemplo bem vivo do que eram os cânticos religiosos nestas festividades. Este ritual tornou-se para os habitantes uma necessidade e uma obrigação de relembrar o sofrimento de Cristo nos seus últimos momentos de vida.

Este costume, antigamente era realizado num meio rural, onde a poluição sonora quase não existia e onde ainda não havia televisões. Estes cantares decorriam à noite e antes da sexta-feira santa, a população ficava atenta à espera dos primeiros sinais. Eram cantados por duas pessoas, só homens, que o faziam alternadamente. Cada cantadeiro descreve o sofrimento de todas as partes do corpo, desde a cabeça aos pés. Essas duas pessoas que cantam não se podiam ver, então mantinham uma certa distância um do outro e subiam a um ponto elevado, o que implicava que tivessem um grande poder vocal.

Na opinião de Isabel Bicho, de 66 anos, “estas tradições não deviam acabar, porque era bonito e fazia lembrar mais a Páscoa e agora só é consumismo dos doces”. Já Mariana Ramos, com 20 anos, e residente na Boidobra desde que nasceu, acha “mal que estas tradições se percam, porque fazem parte da nossa cultura enquanto freguesia e que devem perdurar de geração em geração”.

As pessoas vão envelhecendo e as tradições desaparecem da memória, contudo o Rancho Folclórico da Boidobra é quem recria esta tradição nas ruas mais emblemáticas da freguesia de forma a relembrar as experiências que eram vividas. Apesar de este ano ser o primeiro ano que não foi realizada, esta associação sempre mostrou interesse para que esta tradição não seja esquecida.

 

Texto: Inês Vaz

Imagem: Rancho Folcórico da Boidobra

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